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sábado, 21 de setembro de 2013

NEYMAR, SEU JORGE, PARALAMAS e CONSUMISMO.

Engraçado. Recentemente um cara falou que criticavam a postura “pseudo” do Zizek em relação à ele ser muito “produtivo” quando se dizia marxista. Tipo, o cara produz para vender, ou seja, quantidade. Então, acumulação, etc.
Penso nas críticas que recebe sobre “usar roupas de marca”[que são doadas e não compradas, diga-se de passagem]. Ou, quando criticam outras pessoas da seguinte maneira: “consumismo, que isso, cara, logo você, que se diz comunista?”.
Lembro também que há alguns anos, as criticas eram as mesmas! Ou seja, “oxe, tu num era comunista, por que comprou isso, por que agora usa aquilo, etc”.
Há, também, uma grande ideia que é senso-comum hoje, a crítica ao “consumismo”. É uma verdadeira “ética!”. “Vixe, você é muito consumista”.
O que é muito legal nisso tudo é perceber a “ação social”, quer dizer, o “consumismo” é empírico (algo que todos podem ver e muitos "são" independentes de suas motivações). Qualquer um pode observar, como pessoas “intelectuais” de hoje, universitários, trabalhadores de classe média, etc etc., que dizem “ei, o problema é que você é comunista na teoria, mas na prática, você é um capitalista"..."epa, capitalista!” Nossa, isso é grosseiro! Quer dizer, as coisas começam a ficar confusas aí. O que era uma coisa agora já é outra e, no final, já não há mais diferença, consumismo e capitalismo viram sinônimo.
Penso, no entanto, que isso tem a ver um pouco, com uma construção social do cotidiano. Um problema. As pessoas não vão além do cotidiano, nesse ponto. Ficam na lenga-a-lenga do dia-a-dia. Ou seja, ficam na “ética”. Quer dizer, ficam no autopoliciamento, “não sou consumista, tenho que resistir, etc etc.,” porém, pergunto – não está ocorrendo um erro de alvo aqui não?
Vejamos, um cara que vive “nesse mundo” se interessa por uma mercadoria qualquer, independente da marca, por exemplo -  ele não pode, se tiver condições, obtê-la, comprá-la?
Gritam do júri, “não! Facista!” [meu bom Deus (pura ironia aqui) como coisas sérias viram senso comum pseudo-crítico, mais um termo estulprado, “facismo”, ser falso é sinônimo, na boca dos críticos hiper-distintos do senso comum, de facismo. É mais pomposo falar, “meu irmão, que bixo facista! Do que, ‘nossa, esse cara é controverso!].
Mas, voltando, pimenta no cú dos outros é refresco! [sábio ditado popular, genial]. Quer dizer, uma grande amigo, que contribuiu muito para minha formação disse uma vez “cara, eu antes não andava de táxi porque não podia; quando passei a poder utilizar, não utilizava, porque via que era uma coisa de “burguês”; mas depois percebi – ei!, eu também deveria ter esse direito”. Acho que essa é a grande sacada.
O erro não está no consumo (ismo). Segundo alguns pensadores do século XX, há uma confusão  atual entre “economia e cultura”, não haveria mais divisão. Isto é, a “cultura de massas” pega o desejo, o que era cultural, como por exemplo, a moda, e torna ela tão “mercadologizada” que agora você deixa de usar roupas para um determinado fim (agasalho, etc) e passa a utilizar a ‘moda verão de uma porra de uma empresa. Assim, o que aconteceu é que você, aqui, acabou por entrar na lógica do “sistema”. Virou “consumista”.
Uma colega da universidade usa somente “celulares top”. Criticam no nosso grupo, acham ela “cocota” [ela vai saber que estou falando dela aqui, mas é bem, tá?!]. Bom, é um erro achar isso. Por que, exatamente?
A lógica do sistema não é entrar no círculo do consumo (ismo). Essa é a segunda etapa. Essa é a vida cotidiana. 
Quer dizer, essa segunda etapa é resultado de uma pré-condição, de uma premissa. É como entrar no jogo sem, no entanto, nunca estarmos fora dele! Sempre estivemos no jogo!
Vou dar outro exemplo então, um menino chamado Neymar sonha em ser jogador de futebol. Bom, quer dizer, jogar futebol faz parte da cultura de muitos países. Então, principalmente no Brasil, jogar futebol é um esporte arraigado na população brasileira. Até aí não tem problema algum. No entanto, acontece, por outro lado, uma coisa: o menino que se identifica com o futebol, que quer ser jogador de futebol, como milhões o querem [inclusive eu já quis] é inserido, “por seu talento”, em um clube e daí em diante, vai se tornando uma perfeita mercadoria. Como assim? Bom, o futebol continua lá, o Neymar ainda é Neymar, mas agora, ele não é só um jogador de futebol que faz o que gosta [afinal, futebol é um esporte com qualquer outro] mas um jogador de futebol que pode gerar valor-de-troca. Quer dizer, não é só valor de uso [jogador de futebol] é também valor de troca [jogador de futebol valioso].
Bom, quê isso que se está dizendo aqui freneticamente: que o menino Neymar; que a menina “cocota”, o menino que usa roupa de marca, o cara que não andava de táxi, todos eles, não são alienígenas [oras, piorou agora!]. Quer dizer, a ironia é a seguinte: eles já estavam dentro do jogo desde o começo. O fato deles consumirem ou não determinada coisa [o futebol, o celular, as roupas, o táxi] não é o lócus (o foco) do problema.
O buraco é um nível abaixo, são todos terráqueos, você não será “mais ou menos comunista” por ser ou não “consumista”. O que tá em jogo aqui é uma coisa chamada “distinção” (minha querida Cláudia que me perdoe por encher-lhe o saco, e a Laura também, por falar tanto essa palavra que mal compreendo mais que brinco por se tratar do título de uma obra que quero ler do Bourdieu.]; a distinção que me refiro é a seguinte: nos policiamos num tipo de ética do que é correto ser – não ser consumista – mas, ao mesmo tempo, nos “pomos no nosso lugar de classe”; ou seja: o jogo é tão bem bolado (mesmo que acidental), que coercitivamente estamos, quando começamos a exercitar nossas críticas, na verdade, reforçando a estrutura e assim, os hábitos e gostos distintos dos “playboys”, dos “cocotas”, dos “burguesinhos”, etc etc., são, na verdade, um direito apenas deles! Nos negamos o direito de ter porque eticamente é algo chamado de consumismo! Porra, mas o problema que parece vir a nossa cara ficou mais distante! Ainda não é esse. Essa é a pontinha do iceberg: o problema ainda se escondeu, escapou por entre os dedos.
Pronto, peguei, está aqui: ilusão, “falsa consciência”, os produtos se nos apresentam como que o fenômeno da visão: a luz entra nos olhos e, de cabeça para baixo, penetra o córtex etc etc [todos já sabem] e então enxergamos. Quer dizer, olhamos para o consumo como o ato principal, como se, por exemplo, o problema do tráfico de drogas fossem os “consumidores”, como alardeia o Tropa de Elite. Deslocamos o problema uma esfera acima; assim como acontece, por exemplo, com o cigarro: o Estado legaliza a venda e discrimina os fumantes – ou seja, lhe sacaneia por consumir; enquanto deixa as empresas venderem. (liberalismo).
Então aqui, chegou-se, grosso modo, aos efeitos dos problemas. Nenhum momento bateu-se (propositalmente o fizemos) nas causas. Quer dizer, até que esbravejou-se dessa galera que, como o cara dos Racionais que tocaram para playboys, fazem o jogo do sistema; oras! São mercadorias ué? A lógica do sistema continua a mesma, essencialmente a mesma. Consumir ou não consumir é um efeito secundário (então aqui, Racionais tocar ou não para a playboyzada, não quer dizer nada).
Merda, escorregou de novo, qual é a questão, afinal: o problema não é o ato de consumir, somos humano-fisiológicos, precisamos consumir; 2) não vivemos em outra sociedade, a saber, em Marte, vivemos aqui e agora, então, não vivemos fora do sistema, mas dentro dele; 3) por isso, o consumismo é o alvo mais fácil da crítica e o que menos bate ou altera as regras do jogo, continuamos jogando o mesmo jogo, tentando mudar apenas a ética do consumo.
O problema é simples, muito simples: por que todos não podem ter o mesmo poder de consumo? Hã? Como assim?
Num show na noite passada, no Classic Hall, em Recife, Herbert Viana cantava: “de um lado esse carnaval, do outro a fome total... mundo tão desigual”; “Seu Jorge” dizia, “mas é Morro do Pau da Bandeira.... e na hora que a televisão brasileira, desTRÓI tanta gente com a sua novela”... enquanto a pequena classe C (pra cima) se empolgava em brados de “Que país é esse, é a porra do Brasil”; tinha gente negra, parda, mestiça, mal trapilha, fora de qualquer padrão estético de beleza, cabelos crespos, mal cheirosos, de todas as idades, vendendo copos para bebida, revendendo cervejas de grandes marcas”, na chuva, quer dizer; a classe E, estava na rua, sem gozar ali da diversão (mercadoria) que o resto estava tendo direito. Onde está o consumismo aqui? Faço o que? Não entro no show? Fico do lado de fora? Qual é o problema aqui, afinal? Entrar ou não entrar, eis a questão? (é um problema ético, moral?) Não, este não é o problema. Como venho tentando demonstrar, é da estrutura desigual do sistema que brota essa distinção. O problema não está na esfera do consumo. É um problema muito maior que ninguém quer levar a sério. Todo o resto que se opõe a esse sistema é mera utopia. Por isso, qual a lição: simples – ao invés de criticar essas roupas, mãos, e mercadorias que te afagam, escarre nessa boca te beija - o capital.

A sacanagem(bibliografia):
MARX e ENGELS;
BARTHES,
BOURDIEU,
LUKÁCS,
ZIZEK,
Baudrillard,
EAGLETON,
LATOUR,
LEFF,
MESZÁROS,
LESSA,
PANIAGO,
TONET,
ALTHUSSER,
BERGER,
WEBER,
NETTO,
VAISMAN,
LACAN
(não dá pra citar tudo que tem a ver com o texto, afinal)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

DILMA: PLEBISCITO e PROTESTOS II



Dissemos em postagem anterior, com o mesmo título:

“O referendo (ou “um” referendo) não seria, grosso modo, uma forma do próprio povo de se manifestar, de se REPRESENTAR?

Antecipamos uma resposta:

“Obviamente que a pauta foi dada apriori.”

Agora comentamos os fatos decorridos até então:

1)      O jogo político se deu na superestrutura, a saber, nas relações político-ideológicas (grosso modo) burguesas. Assim sendo, a margem de manobra foi estreita. Não foi possível ir além de pequenas reformas (0,10 R$ a menos ali, mais médicos aculá, mais dinheiro de Royalties para educação, votação em mais rigor em punições contra corruptos – combate a efeitos, portanto, não as causas – etc.,);

2)      Quando os caminhoneiros (estes trabalhadores que transportam a “riqueza material” da sociedade) entraram na onda de paralisações, unidos enquanto classe, receberam da presidenta uma resposta: “não vou permitir que nossa atividades produtivas [relações de produção capitalistas – infraestrutura] sejam interrompidas...”;

3)      Quando os rodoviários pararam em Pernambuco, ou seja, enquanto estes trabalhadores se uniram enquanto classe, já no segundo dia de paralização, puderam ver sua greve se tornar, pelo ministério publico, em uma atividade ilegal. Bravamente continuaram, mas o governador, Eduardo Campos, junto ao Ministério Público, no quinto dia [se bem me lembro] de greve, utilizou todos os meios para que as atividades produtivas voltassem ao normal (pois é claro que quando os transportes param todo o sistema para, as engrenagens da reprodução infraestrutural do capitalismo param).

Como conclusão, podemos dizer que:

Quando os trabalhadores da base (relações materiais de produção) pararam, não ouve apoio de nenhuma outra esfera da sociedade (a pequena burguesia dos protestos que “acordou o gigante”, logicamente, não se manifestou; nem tampouco a massa de manobra, o oba-oba que totalizou 100 mil aqui, 10 mil aculá etc); ninguém se manifestou em apoio aos caminhoneiros e rodoviários grevistas.

Por ultimo, pensando em conservadores e revolucionários: os Grandes protestos acabaram por jogar um jogo conservador, que permaneceu legitimando a tradição; ao passo que o teor revolucionário inexistiu.


Que avanços foram esses?

Breve comentários sobre o pedido do prefeito do Rio de janeiro



Ele quer que deixem as portas de sua casa, pois o prefeito que é, melhor dizendo: o político que é o é enquanto exerce sua profissão, seu cargo. Portanto, o homem que fica em casa, com a família, não é o mesmo que exerce a política.

Bom exemplo da divisão entre ética e moral. 

Partindo da ideia de que a moral seria pessoal, referente a valores, princípios privados e não o contrário, referente à vida publica, logo, entende-se o que o prefeito quis dizer: “em casa [moral] não sou o prefeito-político [ética]”. 

Envolve-se, também, com a ideia de “Razão de Estado”. Isto é, com a forma de agir própria do Príncipe (governante, soberano) enquanto representante do Estado. Dessa forma, a racionalidade necessária ao exercício da Ordem secundariza os princípios morais [privados] e, nesse sentido, faz o que se tem que fazer (independentemente da vida privada, moral).

Esta ilustração quer dizer apenas o seguinte: as manifestações contra o prefeito do Rio de Janeiro estão lhe atingindo das duas formas: moral e eticamente, político e pessoalmente, publico e privadamente. 

Maria Laura disse o seguinte: Por que ele (o prefeito) não pensa isso (ao falar enquanto pai, pensando nos filhos) quando age (pela razão de Estado) da maneira como tem agido (“como é que ele pode se sentir desvalorizado e ameaçado, se as pessoas são ameaçadas, desvalorizadas e humilhadas pelo seu governo o tempo inteiro?”). 

Por: Gabriel Brito e Maria Laura.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

DILMA: PLEBISCITO e PROTESTOS



Um PLEBISCITO sobre a reforma política diante das manifestações “populares” (à parte posições conservadoras; supostamente neutras; ou de esquerda)?
Maior severidade aos “corruptos”? Dar ao povo o PODER de decidi-lo?, e não somente essa decisão, mas da REFORMA no geral?
A Constituição de 1988 alterada, LEGITIMAMENTE PELO POVO?
Foto de � Ueslei Marcelino / Reuters/Reuters¹
 
 
            Surpreendentemente, DILMA (tantas vezes criticada) apresenta uma possibilidade política que, de fato, se aproxima da esquerda. Essa não era a prática, justamente, do venezuelano HUGO CHAVES?, e por isso, consequentemente, a demonização realizada pela  direita (e da classe/ IDEOLOGIA DOMINANTE) ao mesmo?
            Um dos problemas referentes ao ESTADO e, nesse caso, a POLÍTICA (enquanto meio pelo qual se utiliza, teoricamente, de forma legítima ou justificável, o PODER) é a REPRESENTATIVIDADE. Quantas frases não estão sendo publicadas em redes sociais com slogans do tipo: “Feliciano não me representa”; “Pelé, Ronaldo não me representam”; “Diego me representa.”, etc.? Isto é: a REPRESENTATIVIDADE é estritamente delicada.
            O referendo (ou “um” referendo) não seria, grosso modo, uma forma do próprio povo de se manifestar, de se REPRESENTAR? Não é justamente esse o medo da direita (e da IDEOLOGIA DOMINANTE)? Principalmente agora, que o povo (repetimos: independente se conservadores, “neutros”, direitistas ou esquerdistas) não “para mais em casa!”, vive nas ruas.
            Obviamente que a pauta foi dada apriori (não necessariamente podemos dizer que o povo construiu a pauta). Nesse caso, o direito a greve, é um direito “pró-trabalhadores”, por exemplo, mas joga dentro do jogo do patrão (direito burguês). Ou seja, ainda se está dentro do jogo politicamente dado (superestrutura – em termos marxistas – e não na infra-estrutra). Todavia, ignorar o assombroso fato de que o povo (nós) podemos “tocar” na constituição, é, no mínimo, viver “em um u-topus” (um lugar nenhum).
            O perigo, todavia, não pode ser esquecido. Faz-se necessário lembrar do passado, de 1964 (só como alerta, mas não somente). Historicamente, os golpes (não somente militares) entram em jogo como CONTRA-REFORMAS.  Por isso, diante do povo nas ruas, diante da potencialidade de modificação constitucional; em germe (ou já em girino), existe “o monstro da lagoa”. 

¹: Disponível em: <http://br.noticias.yahoo.com/fotos/presidente-dilma-rousseff-%C3%A9-vista-durante-cerim%C3%B4nia-pal%C3%A1cio-foto-194655229.html>

sábado, 2 de março de 2013

Além da sala de aula.




Hoje em dia parece senso-comum a ideia de que a educação e os respectivos problemas de falta de “respeito” dos alunos e a violência, a falta de disciplina, sejam problemas inerentes aos “dias de hoje”. Dessa forma, costumamos ouvir que o problema é que os professores ganham pouco, por isso não se empenham e melhorar a educação; ou então que o problema é uma possível falta de autoridade que existe hoje em relação aos professores, que por isso não podem manter uma rigidez compatível com os métodos de 50 anos atrás. Quando não, costumam dizer que o problema é a educação familiar dos alunos que, não ensinam valores adequados aos jovens alunos ou que a “democracia” e liberdade de hoje atrapalham pois os alunos “exageram” no que toca a liberdade. Como solução dever-se-ia, supostamente, retornarmos a um estado anterior de disciplina para que os alunos voltassem a ter respeito pelos professores. Pois bem, vejamos alguns casos que podem oferecer outra perspectiva que não um senso-comum.
Primeiramente, os casos que citamos acima foram resultado de que tipo de políticas?, segundo, em relação a estratificação social, os mesmos casos são estatisticamente mais comuns, ou números, em que classes sociais?
É necessário dizer que não se pode analisar uma dada estrutura social sem analisar onde ela se insere, qual a relação dela com o restante da estrutura e sociometabolismo[1] em determinado tempo-espaço. Assim, não podemos falar de educação, sem falar de economia, política, etc., e suas inter-relações. Não podemos esquecer também das famílias, enquanto microcosmos do sociometabolismo.
            Poderiam ser os professores, os culpados?, seus métodos deveriam ser mais relacionados a um ensino mais dinâmico, adaptável, que utilizasse formas de ensino que implicassem numa adequação dos métodos a realidade dos alunos?
            Esse é um caso muito específico, seria necessário então, contar munições de 9mm em sala de aula para que o aluno entendesse melhor de matemática? Ou então dever-se-ia, nos laboratórios de química, explicar-se que os elementos químicos e suas relações iônicas, derivam-se, supomos, da relação do pó da cocaína, com o ácido bórico? Ou seja. Dever-se-ia levar aos laboratórios saquinhos de cocaína para que os alunos de determinada região se interessassem mais pela matéria?
            Não estamos fazendo apenas uma análise valorativa, mas antes, tentando apontar para outro problema social: a violência nas comunidades carentes (e não somente nelas). A violência está ligada, estatisticamente, aos locais em que o poder aquisitivo da população é baixo. Segundo, a baixa instrução das famílias normalmente é de semianalfabetos. Logo, quando se fala em educação e nos tantos problemas referentes a educação hoje, estão ignorando a estratificação social para tratar do assunto. Os locais onde o comportamento dos alunos é mais alto é justamente onde estão as classes baixas e não as altas e médias. Portanto, não podemos esquecer-nos da economia ao tratar do assunto.
            Professores, educadores, pedagogos são seres humanos, não deuses redentores. Ou seja, não podem sozinhos, ter motivação e vigor suficientes para salvar a educação no Brasil, independente de seus salários.
            Durante as décadas de 1960, 70 e 80, o Brasil viveu uma ditadura militar que, apesar de politicamente ser uma forma de “tirania”, economicamente, não deixa de ser uma forma de reprodução de capital (em outras palavras, o sistema não deixou de ser baseado no capitalismo, isto é, numa relação entre empresas privadas e o Estado que se apropria dos produtores (trabalhadores), lhes expropriando (tirando-lhes as formas e os meios de que trabalhem por conta própria, tacitamente os fazendo trabalhar no regime assalariado em que sua produção, seu trabalho, o produto de seu trabalho, não lhe pertencem, mas antes, pertencem a um outro sujeito que emprega)[2] para aumentar a produção de mercadorias e consequentemente, suas riquezas; o estado media essa relação de produção, de forma não tão intervencionista no caso de num neoliberalismo ou, no caso das décadas anteriores, mas intervencionista o que, na verdade, não muda a estrutura em que se dão essas relações).[3]
            Aponta-se então, para a falta de autoridade dos professores de hoje, em relação ao período acima citado. Porem, é necessário perguntar, em que sociedades vivemos hoje? É a mesma? Obviamente que não, o tempo é outro. Poder-se-ia até dar novamente a autoridade aos professores, mas, qualquer um poderia deduzir que um professor que agisse asperamente com um aluno em uma dada “comunidade”, não voltaria para casa nos próximos dias..., logo, a autoridade recuperada, seria apenas mais um fator para o aumento dos índices de violência, pois a estrutura social em que os alunos e professores estão inseridos, não pode ser vista de forma tão anacrônica e nostálgica, como se por um passe de mágica, tudo voltasse ao normal, era só da autoridade aos professores.
            A democracia de hoje é o problema? Curioso, a democracia ser um problema para o Brasil de hoje, que não sabe “aproveitar a liberdade que tem”, mas por outro lado, as mesmas pessoas que falam isso do Brasil, odeiam Cuba por não ter democracia, mesmo que em tal país pareça (e apenas pareça) haver um sincronismo entre ditadura e boa educação. Essa é a falsa aparência, quando olhamos para a sociedade com simplismo. É necessário penetrar nos complexos sociais e não realizar silogismos ocos.
            A democracia é uma política em que o Estado, mediador do conflito de classes ou, se for preferível, mediador da estratificação social, supostamente representa a todos (ou o “poder do povo”) sem que isso, portanto, corresponda a realidade. Todavia, o que nos interessa é identificar que, num sistema socioeconômico, seja capitalista ou socialista, ter a democracia como sistema político representativo é uma possibilidade e não necessariamente se está tratando das determinantes econômicas de dada sociedade.
            Por trás da democracia, ou socialismo, temos uma organização econômica que divide a sociedade em classes sociais, sejam “pobres e ricos”, seja “proletários, assalariados e burgueses”. Em tal “democracia”, a economia persiste ontologicamente como determinantes das estruturas globais da sociedade. No caso do Brasil, temos um sistema em extremamente desigual, onde a maioria da população vive na pobreza e uma pequena classe abastada concentra a riqueza produzida por toda a população.
            Atualmente, apesar de democrático, o Brasil é um país extremamente desigual. Assim sendo, consequências desastrosas para a sociedade como um todo são refletidas em várias esferas sociais. No caso da educação, temos um Estado (Brasil) em que mesmo que se investisse 50% do PIB na educação, não se teria resultados substanciais, posto que a população carente da sociedade, além de na maioria dos casos não ter instrução, também convivem diariamente com a violência, de todas as formas[4].
            Isso para não falarmos de tráficos de drogas, violência na adolescência, como no caso de torcidas organizadas, gangues, etc., ou seja, trata-se de uma população que vive em situação de risco e na qual, a ética do trabalho honesto, “com suor do próprio rosto”, “não roubaras”, “não matarás”, não faz sentido algum. O mundo a margem das elites, das classes médias que alguns exaltam, é apenas uma parcela da totalidade.
            Estamos tratando aqui de uma parte da sociedade marginizaliada, cuja herança é étnico/racial, herdeira da pobreza, do pauperismo e não das casas-grandes, latifúndios, industrias, etc. Desde a Leia Áurea que uma grande parcela da população foi jogada às ruas, deixadas sem os meios de sobrevivência, de produção e subsistência mínimos para tocar uma vida digna. Essa mesma população hoje é a maioria dentre as populações carentes do Brasil e, estatisticamente, a que mais sofre com a violência (pardos, negros e mulheres negras), nesse caso, não podemos apenas ignorar toda a estrutura social e apontar para a educação como sendo uma esfera distinta das outras.
            A educação é uma parte da sociedade, uma instituição e, como qualquer outra, não é a base da sociedade, mas uma das possíveis (e importantes) instituições, que se articulam com outras superestruturas e as pessoas que fazem parte (alunos e professores) são sujeitos com toda a complexidade do termo. Portanto, outras esferas sociais precisam ser tratadas e analisadas antes de fazermos uma analise puramente achista.
            Esse tema não se esgota aqui, mas temos que pensar que outra sociedade também é possível. Pensar sempre no atual modelo de produção e economia sem imaginar outros horizontes é também, ignorar que a historicidade do ser humano é uma baseada na sua adaptação ativa[5] a natureza, dessa forma, que o ser social é que, em seus complexos sociais, transforma a realidade e transforma a si mesmo. Nosso sistema atual, o qual estamos inseridos é apenas um sistema e até muito mais novo e curto que outros como os modelos econômicos asiáticos, alguns que duraram milhares de anos, como o indiano e o chinês; além do escravismo Greco-romano que perdurou por mais de 1000 anos também; e da sociedade baseada em latifúndios (riqueza imobiliária) e pequeno comercio que se desenvolveu desde a queda de Roma (no ocidente e depois em Constantinopla no Oriente). Pensar numa sociedade melhor é também reconhecer que é possível melhorá-la, mas para isso, é necessário que se logre outros horizontes. Países com altos níveis de escolaridade hoje estão sofrendo com impactos econômicos (Itália, Grécia, Espanha, Portugal, EUA, etc) é só observar os sacrifício que os trabalhadores desses países estão tendo que fazer[6].
            Precisamos pensar que outro mundo é possível. Precisamos olhar a educação não como um caso a parte, mas como a ponta do iceberg.
           

           


[1] : Sociometabolismo: basicamente, estruturas e o organismo social em sua totalidade e funcionamento, (MESZÁROS, 2004, 2011).
[2] : Cf. MARX(1890), principalmente, o capítulo:  O Processo de acumulação primitiva de capital.
[3] : c.f. artigo de Cristina Paniago, NEOLIBERALISMO E OS ANTECEDENTES DA “CRISE” DO ESTADO, in Comunicação científica apresentada no XI ENPESS, em São Luis, 2008. Disponível em ftp://ftp.unilins.edu.br/leonides/Aulas/Form%20Socio%20Historica%20do%20Br%202/Neoliberalismo_Estado.PDF acessado em 02/03/13.

[4] : Em recente estudo, sobre violência de gêneros, Malvina E. Mukat diz o seguinte: Trata-se de uma população com baixo nível de escolaridade, parcialmente alfabetizada, na maioria das vezes desempregada por ocasião de queixa e ganhando a vida por meio de “bicos”. Em geral, são as mulheres quem garantem a estabilidade da família, seja do ponto de vista material ou emocional. p. 224” (grifos nossos), cf. (MUSKAT, 1998).
[5] : Conf. MARX, Karl. A ideologia alemã (Feuerbach), 5ª ed. Hucitec, São Paulo, 1986.
[6] : Ver, por exemplo, matérias do El País, “Governo grego se reúne para definir novas medidas de austeridade”,  27/10/2012; e “La cura de austeridad que recorre el espinazo de Europa ha tumbado a todos los Gobiernos sometidos a las urnas desde que arrancó la crisis y ha sacado a las calles a millones de ciudadanos contra unas recetas herederas del dogma de Bruselas”. 26 FEB 2013.