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sábado, 2 de março de 2013

Além da sala de aula.




Hoje em dia parece senso-comum a ideia de que a educação e os respectivos problemas de falta de “respeito” dos alunos e a violência, a falta de disciplina, sejam problemas inerentes aos “dias de hoje”. Dessa forma, costumamos ouvir que o problema é que os professores ganham pouco, por isso não se empenham e melhorar a educação; ou então que o problema é uma possível falta de autoridade que existe hoje em relação aos professores, que por isso não podem manter uma rigidez compatível com os métodos de 50 anos atrás. Quando não, costumam dizer que o problema é a educação familiar dos alunos que, não ensinam valores adequados aos jovens alunos ou que a “democracia” e liberdade de hoje atrapalham pois os alunos “exageram” no que toca a liberdade. Como solução dever-se-ia, supostamente, retornarmos a um estado anterior de disciplina para que os alunos voltassem a ter respeito pelos professores. Pois bem, vejamos alguns casos que podem oferecer outra perspectiva que não um senso-comum.
Primeiramente, os casos que citamos acima foram resultado de que tipo de políticas?, segundo, em relação a estratificação social, os mesmos casos são estatisticamente mais comuns, ou números, em que classes sociais?
É necessário dizer que não se pode analisar uma dada estrutura social sem analisar onde ela se insere, qual a relação dela com o restante da estrutura e sociometabolismo[1] em determinado tempo-espaço. Assim, não podemos falar de educação, sem falar de economia, política, etc., e suas inter-relações. Não podemos esquecer também das famílias, enquanto microcosmos do sociometabolismo.
            Poderiam ser os professores, os culpados?, seus métodos deveriam ser mais relacionados a um ensino mais dinâmico, adaptável, que utilizasse formas de ensino que implicassem numa adequação dos métodos a realidade dos alunos?
            Esse é um caso muito específico, seria necessário então, contar munições de 9mm em sala de aula para que o aluno entendesse melhor de matemática? Ou então dever-se-ia, nos laboratórios de química, explicar-se que os elementos químicos e suas relações iônicas, derivam-se, supomos, da relação do pó da cocaína, com o ácido bórico? Ou seja. Dever-se-ia levar aos laboratórios saquinhos de cocaína para que os alunos de determinada região se interessassem mais pela matéria?
            Não estamos fazendo apenas uma análise valorativa, mas antes, tentando apontar para outro problema social: a violência nas comunidades carentes (e não somente nelas). A violência está ligada, estatisticamente, aos locais em que o poder aquisitivo da população é baixo. Segundo, a baixa instrução das famílias normalmente é de semianalfabetos. Logo, quando se fala em educação e nos tantos problemas referentes a educação hoje, estão ignorando a estratificação social para tratar do assunto. Os locais onde o comportamento dos alunos é mais alto é justamente onde estão as classes baixas e não as altas e médias. Portanto, não podemos esquecer-nos da economia ao tratar do assunto.
            Professores, educadores, pedagogos são seres humanos, não deuses redentores. Ou seja, não podem sozinhos, ter motivação e vigor suficientes para salvar a educação no Brasil, independente de seus salários.
            Durante as décadas de 1960, 70 e 80, o Brasil viveu uma ditadura militar que, apesar de politicamente ser uma forma de “tirania”, economicamente, não deixa de ser uma forma de reprodução de capital (em outras palavras, o sistema não deixou de ser baseado no capitalismo, isto é, numa relação entre empresas privadas e o Estado que se apropria dos produtores (trabalhadores), lhes expropriando (tirando-lhes as formas e os meios de que trabalhem por conta própria, tacitamente os fazendo trabalhar no regime assalariado em que sua produção, seu trabalho, o produto de seu trabalho, não lhe pertencem, mas antes, pertencem a um outro sujeito que emprega)[2] para aumentar a produção de mercadorias e consequentemente, suas riquezas; o estado media essa relação de produção, de forma não tão intervencionista no caso de num neoliberalismo ou, no caso das décadas anteriores, mas intervencionista o que, na verdade, não muda a estrutura em que se dão essas relações).[3]
            Aponta-se então, para a falta de autoridade dos professores de hoje, em relação ao período acima citado. Porem, é necessário perguntar, em que sociedades vivemos hoje? É a mesma? Obviamente que não, o tempo é outro. Poder-se-ia até dar novamente a autoridade aos professores, mas, qualquer um poderia deduzir que um professor que agisse asperamente com um aluno em uma dada “comunidade”, não voltaria para casa nos próximos dias..., logo, a autoridade recuperada, seria apenas mais um fator para o aumento dos índices de violência, pois a estrutura social em que os alunos e professores estão inseridos, não pode ser vista de forma tão anacrônica e nostálgica, como se por um passe de mágica, tudo voltasse ao normal, era só da autoridade aos professores.
            A democracia de hoje é o problema? Curioso, a democracia ser um problema para o Brasil de hoje, que não sabe “aproveitar a liberdade que tem”, mas por outro lado, as mesmas pessoas que falam isso do Brasil, odeiam Cuba por não ter democracia, mesmo que em tal país pareça (e apenas pareça) haver um sincronismo entre ditadura e boa educação. Essa é a falsa aparência, quando olhamos para a sociedade com simplismo. É necessário penetrar nos complexos sociais e não realizar silogismos ocos.
            A democracia é uma política em que o Estado, mediador do conflito de classes ou, se for preferível, mediador da estratificação social, supostamente representa a todos (ou o “poder do povo”) sem que isso, portanto, corresponda a realidade. Todavia, o que nos interessa é identificar que, num sistema socioeconômico, seja capitalista ou socialista, ter a democracia como sistema político representativo é uma possibilidade e não necessariamente se está tratando das determinantes econômicas de dada sociedade.
            Por trás da democracia, ou socialismo, temos uma organização econômica que divide a sociedade em classes sociais, sejam “pobres e ricos”, seja “proletários, assalariados e burgueses”. Em tal “democracia”, a economia persiste ontologicamente como determinantes das estruturas globais da sociedade. No caso do Brasil, temos um sistema em extremamente desigual, onde a maioria da população vive na pobreza e uma pequena classe abastada concentra a riqueza produzida por toda a população.
            Atualmente, apesar de democrático, o Brasil é um país extremamente desigual. Assim sendo, consequências desastrosas para a sociedade como um todo são refletidas em várias esferas sociais. No caso da educação, temos um Estado (Brasil) em que mesmo que se investisse 50% do PIB na educação, não se teria resultados substanciais, posto que a população carente da sociedade, além de na maioria dos casos não ter instrução, também convivem diariamente com a violência, de todas as formas[4].
            Isso para não falarmos de tráficos de drogas, violência na adolescência, como no caso de torcidas organizadas, gangues, etc., ou seja, trata-se de uma população que vive em situação de risco e na qual, a ética do trabalho honesto, “com suor do próprio rosto”, “não roubaras”, “não matarás”, não faz sentido algum. O mundo a margem das elites, das classes médias que alguns exaltam, é apenas uma parcela da totalidade.
            Estamos tratando aqui de uma parte da sociedade marginizaliada, cuja herança é étnico/racial, herdeira da pobreza, do pauperismo e não das casas-grandes, latifúndios, industrias, etc. Desde a Leia Áurea que uma grande parcela da população foi jogada às ruas, deixadas sem os meios de sobrevivência, de produção e subsistência mínimos para tocar uma vida digna. Essa mesma população hoje é a maioria dentre as populações carentes do Brasil e, estatisticamente, a que mais sofre com a violência (pardos, negros e mulheres negras), nesse caso, não podemos apenas ignorar toda a estrutura social e apontar para a educação como sendo uma esfera distinta das outras.
            A educação é uma parte da sociedade, uma instituição e, como qualquer outra, não é a base da sociedade, mas uma das possíveis (e importantes) instituições, que se articulam com outras superestruturas e as pessoas que fazem parte (alunos e professores) são sujeitos com toda a complexidade do termo. Portanto, outras esferas sociais precisam ser tratadas e analisadas antes de fazermos uma analise puramente achista.
            Esse tema não se esgota aqui, mas temos que pensar que outra sociedade também é possível. Pensar sempre no atual modelo de produção e economia sem imaginar outros horizontes é também, ignorar que a historicidade do ser humano é uma baseada na sua adaptação ativa[5] a natureza, dessa forma, que o ser social é que, em seus complexos sociais, transforma a realidade e transforma a si mesmo. Nosso sistema atual, o qual estamos inseridos é apenas um sistema e até muito mais novo e curto que outros como os modelos econômicos asiáticos, alguns que duraram milhares de anos, como o indiano e o chinês; além do escravismo Greco-romano que perdurou por mais de 1000 anos também; e da sociedade baseada em latifúndios (riqueza imobiliária) e pequeno comercio que se desenvolveu desde a queda de Roma (no ocidente e depois em Constantinopla no Oriente). Pensar numa sociedade melhor é também reconhecer que é possível melhorá-la, mas para isso, é necessário que se logre outros horizontes. Países com altos níveis de escolaridade hoje estão sofrendo com impactos econômicos (Itália, Grécia, Espanha, Portugal, EUA, etc) é só observar os sacrifício que os trabalhadores desses países estão tendo que fazer[6].
            Precisamos pensar que outro mundo é possível. Precisamos olhar a educação não como um caso a parte, mas como a ponta do iceberg.
           

           


[1] : Sociometabolismo: basicamente, estruturas e o organismo social em sua totalidade e funcionamento, (MESZÁROS, 2004, 2011).
[2] : Cf. MARX(1890), principalmente, o capítulo:  O Processo de acumulação primitiva de capital.
[3] : c.f. artigo de Cristina Paniago, NEOLIBERALISMO E OS ANTECEDENTES DA “CRISE” DO ESTADO, in Comunicação científica apresentada no XI ENPESS, em São Luis, 2008. Disponível em ftp://ftp.unilins.edu.br/leonides/Aulas/Form%20Socio%20Historica%20do%20Br%202/Neoliberalismo_Estado.PDF acessado em 02/03/13.

[4] : Em recente estudo, sobre violência de gêneros, Malvina E. Mukat diz o seguinte: Trata-se de uma população com baixo nível de escolaridade, parcialmente alfabetizada, na maioria das vezes desempregada por ocasião de queixa e ganhando a vida por meio de “bicos”. Em geral, são as mulheres quem garantem a estabilidade da família, seja do ponto de vista material ou emocional. p. 224” (grifos nossos), cf. (MUSKAT, 1998).
[5] : Conf. MARX, Karl. A ideologia alemã (Feuerbach), 5ª ed. Hucitec, São Paulo, 1986.
[6] : Ver, por exemplo, matérias do El País, “Governo grego se reúne para definir novas medidas de austeridade”,  27/10/2012; e “La cura de austeridad que recorre el espinazo de Europa ha tumbado a todos los Gobiernos sometidos a las urnas desde que arrancó la crisis y ha sacado a las calles a millones de ciudadanos contra unas recetas herederas del dogma de Bruselas”. 26 FEB 2013.