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sábado, 21 de setembro de 2013

NEYMAR, SEU JORGE, PARALAMAS e CONSUMISMO.

Engraçado. Recentemente um cara falou que criticavam a postura “pseudo” do Zizek em relação à ele ser muito “produtivo” quando se dizia marxista. Tipo, o cara produz para vender, ou seja, quantidade. Então, acumulação, etc.
Penso nas críticas que recebe sobre “usar roupas de marca”[que são doadas e não compradas, diga-se de passagem]. Ou, quando criticam outras pessoas da seguinte maneira: “consumismo, que isso, cara, logo você, que se diz comunista?”.
Lembro também que há alguns anos, as criticas eram as mesmas! Ou seja, “oxe, tu num era comunista, por que comprou isso, por que agora usa aquilo, etc”.
Há, também, uma grande ideia que é senso-comum hoje, a crítica ao “consumismo”. É uma verdadeira “ética!”. “Vixe, você é muito consumista”.
O que é muito legal nisso tudo é perceber a “ação social”, quer dizer, o “consumismo” é empírico (algo que todos podem ver e muitos "são" independentes de suas motivações). Qualquer um pode observar, como pessoas “intelectuais” de hoje, universitários, trabalhadores de classe média, etc etc., que dizem “ei, o problema é que você é comunista na teoria, mas na prática, você é um capitalista"..."epa, capitalista!” Nossa, isso é grosseiro! Quer dizer, as coisas começam a ficar confusas aí. O que era uma coisa agora já é outra e, no final, já não há mais diferença, consumismo e capitalismo viram sinônimo.
Penso, no entanto, que isso tem a ver um pouco, com uma construção social do cotidiano. Um problema. As pessoas não vão além do cotidiano, nesse ponto. Ficam na lenga-a-lenga do dia-a-dia. Ou seja, ficam na “ética”. Quer dizer, ficam no autopoliciamento, “não sou consumista, tenho que resistir, etc etc.,” porém, pergunto – não está ocorrendo um erro de alvo aqui não?
Vejamos, um cara que vive “nesse mundo” se interessa por uma mercadoria qualquer, independente da marca, por exemplo -  ele não pode, se tiver condições, obtê-la, comprá-la?
Gritam do júri, “não! Facista!” [meu bom Deus (pura ironia aqui) como coisas sérias viram senso comum pseudo-crítico, mais um termo estulprado, “facismo”, ser falso é sinônimo, na boca dos críticos hiper-distintos do senso comum, de facismo. É mais pomposo falar, “meu irmão, que bixo facista! Do que, ‘nossa, esse cara é controverso!].
Mas, voltando, pimenta no cú dos outros é refresco! [sábio ditado popular, genial]. Quer dizer, uma grande amigo, que contribuiu muito para minha formação disse uma vez “cara, eu antes não andava de táxi porque não podia; quando passei a poder utilizar, não utilizava, porque via que era uma coisa de “burguês”; mas depois percebi – ei!, eu também deveria ter esse direito”. Acho que essa é a grande sacada.
O erro não está no consumo (ismo). Segundo alguns pensadores do século XX, há uma confusão  atual entre “economia e cultura”, não haveria mais divisão. Isto é, a “cultura de massas” pega o desejo, o que era cultural, como por exemplo, a moda, e torna ela tão “mercadologizada” que agora você deixa de usar roupas para um determinado fim (agasalho, etc) e passa a utilizar a ‘moda verão de uma porra de uma empresa. Assim, o que aconteceu é que você, aqui, acabou por entrar na lógica do “sistema”. Virou “consumista”.
Uma colega da universidade usa somente “celulares top”. Criticam no nosso grupo, acham ela “cocota” [ela vai saber que estou falando dela aqui, mas é bem, tá?!]. Bom, é um erro achar isso. Por que, exatamente?
A lógica do sistema não é entrar no círculo do consumo (ismo). Essa é a segunda etapa. Essa é a vida cotidiana. 
Quer dizer, essa segunda etapa é resultado de uma pré-condição, de uma premissa. É como entrar no jogo sem, no entanto, nunca estarmos fora dele! Sempre estivemos no jogo!
Vou dar outro exemplo então, um menino chamado Neymar sonha em ser jogador de futebol. Bom, quer dizer, jogar futebol faz parte da cultura de muitos países. Então, principalmente no Brasil, jogar futebol é um esporte arraigado na população brasileira. Até aí não tem problema algum. No entanto, acontece, por outro lado, uma coisa: o menino que se identifica com o futebol, que quer ser jogador de futebol, como milhões o querem [inclusive eu já quis] é inserido, “por seu talento”, em um clube e daí em diante, vai se tornando uma perfeita mercadoria. Como assim? Bom, o futebol continua lá, o Neymar ainda é Neymar, mas agora, ele não é só um jogador de futebol que faz o que gosta [afinal, futebol é um esporte com qualquer outro] mas um jogador de futebol que pode gerar valor-de-troca. Quer dizer, não é só valor de uso [jogador de futebol] é também valor de troca [jogador de futebol valioso].
Bom, quê isso que se está dizendo aqui freneticamente: que o menino Neymar; que a menina “cocota”, o menino que usa roupa de marca, o cara que não andava de táxi, todos eles, não são alienígenas [oras, piorou agora!]. Quer dizer, a ironia é a seguinte: eles já estavam dentro do jogo desde o começo. O fato deles consumirem ou não determinada coisa [o futebol, o celular, as roupas, o táxi] não é o lócus (o foco) do problema.
O buraco é um nível abaixo, são todos terráqueos, você não será “mais ou menos comunista” por ser ou não “consumista”. O que tá em jogo aqui é uma coisa chamada “distinção” (minha querida Cláudia que me perdoe por encher-lhe o saco, e a Laura também, por falar tanto essa palavra que mal compreendo mais que brinco por se tratar do título de uma obra que quero ler do Bourdieu.]; a distinção que me refiro é a seguinte: nos policiamos num tipo de ética do que é correto ser – não ser consumista – mas, ao mesmo tempo, nos “pomos no nosso lugar de classe”; ou seja: o jogo é tão bem bolado (mesmo que acidental), que coercitivamente estamos, quando começamos a exercitar nossas críticas, na verdade, reforçando a estrutura e assim, os hábitos e gostos distintos dos “playboys”, dos “cocotas”, dos “burguesinhos”, etc etc., são, na verdade, um direito apenas deles! Nos negamos o direito de ter porque eticamente é algo chamado de consumismo! Porra, mas o problema que parece vir a nossa cara ficou mais distante! Ainda não é esse. Essa é a pontinha do iceberg: o problema ainda se escondeu, escapou por entre os dedos.
Pronto, peguei, está aqui: ilusão, “falsa consciência”, os produtos se nos apresentam como que o fenômeno da visão: a luz entra nos olhos e, de cabeça para baixo, penetra o córtex etc etc [todos já sabem] e então enxergamos. Quer dizer, olhamos para o consumo como o ato principal, como se, por exemplo, o problema do tráfico de drogas fossem os “consumidores”, como alardeia o Tropa de Elite. Deslocamos o problema uma esfera acima; assim como acontece, por exemplo, com o cigarro: o Estado legaliza a venda e discrimina os fumantes – ou seja, lhe sacaneia por consumir; enquanto deixa as empresas venderem. (liberalismo).
Então aqui, chegou-se, grosso modo, aos efeitos dos problemas. Nenhum momento bateu-se (propositalmente o fizemos) nas causas. Quer dizer, até que esbravejou-se dessa galera que, como o cara dos Racionais que tocaram para playboys, fazem o jogo do sistema; oras! São mercadorias ué? A lógica do sistema continua a mesma, essencialmente a mesma. Consumir ou não consumir é um efeito secundário (então aqui, Racionais tocar ou não para a playboyzada, não quer dizer nada).
Merda, escorregou de novo, qual é a questão, afinal: o problema não é o ato de consumir, somos humano-fisiológicos, precisamos consumir; 2) não vivemos em outra sociedade, a saber, em Marte, vivemos aqui e agora, então, não vivemos fora do sistema, mas dentro dele; 3) por isso, o consumismo é o alvo mais fácil da crítica e o que menos bate ou altera as regras do jogo, continuamos jogando o mesmo jogo, tentando mudar apenas a ética do consumo.
O problema é simples, muito simples: por que todos não podem ter o mesmo poder de consumo? Hã? Como assim?
Num show na noite passada, no Classic Hall, em Recife, Herbert Viana cantava: “de um lado esse carnaval, do outro a fome total... mundo tão desigual”; “Seu Jorge” dizia, “mas é Morro do Pau da Bandeira.... e na hora que a televisão brasileira, desTRÓI tanta gente com a sua novela”... enquanto a pequena classe C (pra cima) se empolgava em brados de “Que país é esse, é a porra do Brasil”; tinha gente negra, parda, mestiça, mal trapilha, fora de qualquer padrão estético de beleza, cabelos crespos, mal cheirosos, de todas as idades, vendendo copos para bebida, revendendo cervejas de grandes marcas”, na chuva, quer dizer; a classe E, estava na rua, sem gozar ali da diversão (mercadoria) que o resto estava tendo direito. Onde está o consumismo aqui? Faço o que? Não entro no show? Fico do lado de fora? Qual é o problema aqui, afinal? Entrar ou não entrar, eis a questão? (é um problema ético, moral?) Não, este não é o problema. Como venho tentando demonstrar, é da estrutura desigual do sistema que brota essa distinção. O problema não está na esfera do consumo. É um problema muito maior que ninguém quer levar a sério. Todo o resto que se opõe a esse sistema é mera utopia. Por isso, qual a lição: simples – ao invés de criticar essas roupas, mãos, e mercadorias que te afagam, escarre nessa boca te beija - o capital.

A sacanagem(bibliografia):
MARX e ENGELS;
BARTHES,
BOURDIEU,
LUKÁCS,
ZIZEK,
Baudrillard,
EAGLETON,
LATOUR,
LEFF,
MESZÁROS,
LESSA,
PANIAGO,
TONET,
ALTHUSSER,
BERGER,
WEBER,
NETTO,
VAISMAN,
LACAN
(não dá pra citar tudo que tem a ver com o texto, afinal)

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